Dr. Rafael Tartaglia – Pneumologista em São Paulo – SP

Neste guia completo, vamos mergulhar no universo da tosse. Vamos entender por que tossimos, quais são as causas mais comuns em adultos e, o mais importante: quando esse sintoma deixa de ser apenas um incômodo e passa a ser um sinal de alerta.

Homem com tosse importante no ambiente de trabalho
Ilustração de um homem tossindo no ambiente de trabalho

1. O que é a tosse e qual o seu significado?

Diferente do que muitos pensam, a tosse não é uma doença em si. Ela é um mecanismo de defesa.

Imagine que seus pulmões e vias aéreas são como os corredores de uma casa que precisam estar sempre limpos para o ar passar. Se algo “estranho” entra nesses corredores ou se há um acúmulo de sujeira (muco), o corpo precisa de uma forma rápida de expulsar isso.

A tosse é essa “expulsão”. O significado dela é simples: seu corpo está tentando proteger seus pulmões.

2. Como a tosse acontece? (Mecanismos desencadeantes)

Para a tosse acontecer, existe um trabalho em equipe dentro do seu corpo. Veja como funciona o passo a passo:

Sensores de alerta (receptores nervosos espalhados por toda a via aérea -do nariz aos pulmões-), captam os estímulos agressores ou gatilhos como por exemplo a poeira, a fumaça, o excesso de catarro, agentes infecciosos ou até mesmo o ácido do estômago como nos casos de refluxo. Eles enviam um sinal elétrico para o cérebro.

O comando central emite uma ordem de expulsão imediata e em seguida você inspira profundamente, a glote (uma válvula na garganta) se fecha, os músculos do peito e da barriga se contraem com força e a glote se abre de repente.

O resultado é uma explosão de ar que pode chegar a velocidades altíssimas, levando consigo o que estiver atrapalhando a respiração.

3. Principais causas da tosse no adulto

Existem dezenas de causas para a tosse, por isso ela deve ser sempre investigada e NUNCA negligenciada. No dia a dia do consultório de pneumologia, algumas aparecem com muito mais frequência. Podemos dividi-las em dois grandes grupos:

A) Tosse Aguda (dura menos de 3 semanas)

Geralmente é causada por eventos passageiros:

  • Gripes e Resfriados: A causa mais comum. O vírus irrita a garganta e aumenta a produção de muco.
  • Sinusites: O catarro do nariz escorre pela parte de trás da garganta (gotejamento pós-nasal), causando irritação.
  • Pneumonia: Uma infecção mais profunda que geralmente vem acompanhada de febre e mal-estar.
  • Crises de asma: A asma quando exacerba pode se manifestar apenas com crises de tosse. 
Raio x de tórax com pneumonia no ápice direito
Raio X de tórax com pneumonia a direita

B) Tosse Crônica (dura mais de 8 semanas)

Esta preocupa mais e exige investigação profunda. As causas principais são:

  1. Tabagismo: O cigarro agride os cílios (pequenos pelos) que limpam os pulmões, fazendo com que a tosse seja o único meio de limpeza.
  2. Refluxo Gastroesofágico: Muitas pessoas não sentem azia, mas o ácido do estômago sobe e irrita as vias aéreas.
  3. Asma: Às vezes, a única manifestação da asma é a tosse seca, sem o chiado clássico.
  4. Uso de medicamentos: Alguns remédios para pressão alta (como o Enalapril ou Captopril) podem causar tosse seca como efeito colateral.
  5. DPOC: Como vimos no posto específico sobre a DPOC, a destruição dos alvéolos e a bronquite crônica geram tosse constante.
  6. Rinite e Sinusite Crônica: O constante “pinga-pinga” de secreção na garganta mantém o reflexo da tosse ligado.

4. Tipos de tosse: O que cada uma diz?

A característica da tosse ajuda o médico a fechar o diagnóstico. Observe a sua:

  • Tosse Seca: Não há produção de muco ou secreção. E aquela que parece um “arranhão” na garganta. Pode ser alergia, refluxo ou início de uma virose.
  • Tosse com Catarro (Produtiva): Indica que há secreção sendo produzida nos pulmões, nos brônquios ou nas vias aéreas superiores (seios da face – sinusites). A cor do catarro (claro, amarelado ou esverdeado) ajuda a entender se há infecção.
  • Tosse Noturna: Comum na asma e em problemas cardíacos, devido ao gotejamento do nariz ao deitar ou ainda secundário a refluxo gastroesofágico.
  • Tosse após as refeições: Um sinal muito forte de refluxo ou dificuldade de deglutição.

5. Sinais de Alarme: Quando devo me preocupar?

Nem toda tosse precisa de uma corrida ao pronto-socorro, mas existem os chamados “Red Flags” (sinais vermelhos). Se você ou alguém da sua família apresentar algum desses sintomas junto com a tosse, procure um pneumologista ou serviço de urgência/emergência:

  1. Presença de sangue: Tosse com qualquer rastro de sangue (mesmo que pouco).
  2. Falta de ar: Dificuldade real para respirar ou cansaço para falar.
  3. Febre persistente: Febre que não cede após 24 horas ou que é muito alta.
  4. Perda de peso inexplicável: Tossir e emagrecer sem estar fazendo dieta.
  5. Suores noturnos: Acordar com o pijama e o lençol encharcados de suor.
  6. Rouquidão constante: Mudança na voz que dura mais de duas semanas.
  7. Dor no peito: Dor forte ao tossir ou ao respirar fundo.
  8. Tosse que não passa: Dura mais de duas semanas

6. Por que não devo me automedicar para a tosse?

Entendo que muitas vezes a tosse limita a vida do paciente e que precisa ser aliviada. Normalmente isso é feito tratando a causa base, ou seja, toda tosse precisa de um diagnóstico específico. 

Se a tosse é um mecanismo de defesa para expulsar um problema, “calar” a tosse com um xarope sem tratar a causa pode ser perigoso.

Durante o tratamento da causa da tosse até podemos utilizar medicações que aliviam a tosse enquanto as medicações fazem efeito. Mas normalmente só fazemos isso quando temos certeza do diagnóstico e quando a tosse limita muito a vida do paciente.

7. Como aliviar a tosse em casa (enquanto espera a consulta)?

Enquanto você aguarda a avaliação do seu pneumologista, algumas medidas simples e naturais podem ajudar:

  • Hidratação abundante: Beba muita água. A água é um ótimo expectorante. Ela deixa o muco mais fino e fácil de sair.
  • Lavagem nasal: Use soro fisiológico no nariz várias vezes ao dia. Isso limpa as impurezas e evita o gotejamento na garganta.
  • Umidificação do ar: Se o tempo estiver seco, use um umidificador ou uma bacia com água no quarto (longe de tomadas).
  • Evite gatilhos: Fique longe de fumaça de cigarro, perfumes fortes e ambientes com muita poeira.

8. Quais são os exames necessários para investigação da tosse?

Quando você for investigar uma tosse crônica, o médico fará uma verdadeira “investigação de detetive”. Inicialmente com uma anamnese (“conversa”) bem completa, isso seguido por exame físico detalhado. Ele pode ainda solicitar exames:

  • Raio-X ou Tomografia de tórax: Para ver como estão os pulmões.
  • Espirometria: Para avaliar se há asma ou DPOC.
  • Exames de sangue: Para procurar sinais de infecção ou alergia.
  • Avaliação do nariz e garganta: Para checar rinite e sinusite.
Tomografia de tórax com nódulos pulmonares
Tomografia de tórax evidenciando nódulos pulmonares (circulos vermelhos)

Mensagem final:

A tosse é a voz do seu pulmão tentando dizer que algo não está bem. Se ela dura mais de três semanas, se é muito intensa ou se vem acompanhada de qualquer sinal de alarme, não espere. Investigar rapidamente a causa da tosse e realizar um tratamento correto e eficaz é o caminho para voltar a dormir bem, praticar exercícios, ter qualidade de vida e prevenir o diagnóstico tardio depois de alguma complicação mais séria.

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